Energia solar esquenta mas consumidor continua frio

março 2nd, 2010

Nesta semana, a Mitsubishi anunciou desempenho recorde na conversão de energia solar em elétrica, tanto numa pesquisa com painéis do padrão convencional, quanto de um novo produto, as células ultra finas. Isso significa que esse tipo de matriz energética estaria se tornando cada vez mais viável, tendo ainda os recentes avanços e investimentos da China nessa área para reforçar a trajetória positiva.

A adoção dessa fonte alternativa de modo mais amplo seria um grande alento para o clima do planeta. Mas do Reino Unido vem a indicação de que a preocupação do consumidor na hora de optar pela fonte de energia que utiliza é ainda a grana. Pesquisa divulgada pela fabricante de tecnologia para economia energética Energenie  revela que os britânicos pensam mesmo em preço e não carbono na hora de optar pela compra de eletro-eletrônicos, por exemplo.

No Brasil, temos exemplos recentes, em outro setor. Os chamados biocombustíveis, mais especificamente o etanol da cana, vêm amargando críticas pela alta nos preços devido ao intervalo da safra agrícola. Nem na mesa de bar, nem nos noticiários se ouve as pessoas discutirem se manterão o tanque cheio com álcool para reduzir emissões (com base no argumento de que o produto seja realmente menos intenso em carbono). A questão continua sendo o que pesa mais no bolso: o derivado do petróleo ou da cana.

Quem parece estar bem ciente disso é a Google, que também anunciou essa semana estar mais próximo de um sistema de espelhos para geração de energia elétrica a partir do sol que reduzirão pela metade o custo dessa fonte para o consumidor.

Ou seja, a corrida está a pleno vapor. Mas seria positivo se os cidadãos assimiliassem melhor a discussão sobre a viabilidade de seu padrão de consumo e não apenas esperar a solução pronta e barata aparecer na prateleira.

Ricardo Barretto, GVces

IPCC: independência, erros e acertos

fevereiro 18th, 2010

Em artigo publicado no dia 14/2, intitulado A hora e a vez do IPCC, o jornalista Marcelo Leite menciona que o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) deveria ser um órgão independente de governos. O argumento procede, mas até certo ponto: o ponto em que uma total independência da participação de governos não é suficiente para mudar algo no campo político. Se assim o fosse, os milhares de artigos científicos com peer review  documentando os avanços do aquecimento global bastariam para convencer os países da urgência da questão climática. Contudo, não é o que acontece.

O envolvimento dos governos no IPCC permite uma discussão muito mais profícua, apesar dos riscos de restrições que possam ocorrer (e ocorrem). Há assim diálogo entre cientistas e tomadores de decisão. Um diálogo que um artigo em revistas como Nature ou Science ou mesmo relatórios independentes não conseguiriam fazer - não na escala que o IPCC faz.

Ainda em relação ao artigo de Marcelo Leite, é muito ingênuo achar que não ocorrem erros nas compilações de dados para os relatórios. Compilar dados é a ação fundamental do IPCC e algo muito difícil de ser feito. É necessário lembrar também que o painel elege vários revisores os quais são os mesmos que fazem as revisões de artigos científicos em revistas de ponta. Obviamente há pequenos erros nos textos que são corrigidos de relatório para relatório. Nada que comprometa as conclusões. A questão da savanizacao da Amazônia é um típico caso sobre estes pequenos erros. Veja a explicação que postamos no site do IPAM.

Mesmo se o painel assumisse um caráter independente de governos, continuaria cometendo pequenos erros. O que vale é que vem se acertando mais do que errando, apesar da imprevisibilidade dos dados inerente à ciência da mudança climática. Sem o IPCC não teríamos ido tão longe e nem o Protocolo de Kyoto existiria. Estaríamos nas mãos somente dos governos e de suas decisões políticas, pois estes não lêem artigos científicos e nem relatórios escritos pelos cientistas.

Paulo Moutinho, IPAM

Cap, Trade & Movies

fevereiro 17th, 2010

Desde que foi lançado, o filme Cap & Trade, da mesma produtora do Story of Stuff, vem causando polêmica, por ser considerado um pouco tendencioso. Esta semana, novos comentários a respeito de Fernanda Carvalho (TNC) e Paulo Moutinho (IPAM):

“O filme é muito legal. Só que mete o pau no Cap&Trade o tempo todo e gasta menos de 1% do tempo falando de alternativas. Estranho não?” - PM

“Com certeza o objetivo é detonar o Cap&Trade, e não explorar as alternativas, conforme a linha de que um dia o mundo deve decidir abandonar a economia de mercado em favor do meio ambiente. Já fui assim e a vida me ensinou que isso é parecido com esperar Papai Noel. Ainda assim, acho que o Cap&Trade é complexo e tem riscos, e o filme apresenta isso de forma criativa e educativa.” - FC

Confiram: http://www.storyofstuff.com/capandtrade/

Forma como o acordo do clima será conduzido agora ainda é uma incógnita

fevereiro 3rd, 2010

Post originalmente publicado no Clima e Desmtatamento

Dando continuidade à COP 15, no dia 31 de janeiro, 55 países, que juntos somam 80% das emissões de GEE do planeta, enviaram suas metas voluntárias para serem anexadas ao “Acordo de Copenhague”.

O referido acordo foi um documento elaborado por um grupo de chefes de estado para suprimir a falta de um documento oficial produzido nos tramites normais da convenção do clima.

As metas são apresentadas em bases diferentes tendo anos de referência e métodos de cálculo distintos, isto dificulta a análise do conjunto da proposta. Porém uma análise mais profunda indica que as metas voluntárias são insuficientes para garantir um aumento máximo de 2º graus na temperatura média do planeta.

Outro resultado deste processo é a perda de confiança entre os negociadores. Hoje o cenário da convenção do clima é semelhante ao de Porto Príncipe depois do terremoto com o agravante que ainda não existe um plano de reconstrução.

Ouça podcast sobre o tema

Osvaldo Stella, IPAM

REDD+

janeiro 19th, 2010

Acaba de ficar pronta a Minuta de Padrões Sociais e Ambientais para REDD+, a gama de mecanismos para promover a redução de emissões por desmatamento e degradação respeitando direitos de populações tradicionais, garantindo manutenção da biodiversidade e recursos financeiros. O documento, elaborado por uma série de entidades ambientalistas e governos e finalizado numa oficina em dezembro, em Copenhague, passa agora por um período de consultas públicas que vai até o dia 15 de março de 2010. Quem está à frente desse processo são a Aliança para o Clima, Comunidade e Biodiversidade (CCBA) e a CARE Internacional. O objetivo do documento é padronizar processos para criação e implementação de programas de REDD+, para que entrem em operação quando as Nações Unidas adotarem o novo regime na sua Convenção sobre o Clima.

Está em português… vale a pena dar uma olhada.

http://www.oeco.com.br/blog-trajetoriafumaca/108-blog-trajetoriafumaca/23293-redd-padronizado

Saulo Andrade
Instituto Socioambiental

A imprensa precisa se antecipar

janeiro 6th, 2010

Os desastres provocados pelo excesso de chuvas em várias regiões do país são o tema de maior destaque na mídia nesse começo de ano. A imprensa explora o tom dramático da tragédia, mas felizmente não deixou passar batido o discurso demagógico do governador do Rio de Janeiro, mostrando que sua indignação contradiz o decreto assinado por ele há seis meses, autorizando construções em áreas de proteção ambiental, e um estudo que alertava sobre a situação de risco, conforme anuncia OECO.

A exploração imobiliária com a conivência do poder público é algo bastante comum nas áreas costeiras fluminense e paulista. Aliás, a permissividade do poder público em relação a empreiteiras é bastante comum em quase todo lugar, o que explica em parte o caos que acomete grandes cidades quando as chuvas caem em demasia.

Mas estou desviando do assunto que queria tratar nesse post. Se por um lado a imprensa cumpre um papel importante ao relacionar políticas públicas nocivas a desastres socioambientais, por outro esse impulso ainda vem como reação a tragédias e raramente acontece por antecipação dos jornalistas. No caso das chuvas do começo do ano, há pouca relação nas matérias da imprensa entre esse tipo de evento e a necessidade de políticas e ações de adaptação às mudanças climáticas. As chuvas intensas são apontadas como um dos principais efeitos que o Brasil deverá experienciar numa situaçã de desequilíbrio climático. 

Mas há um outro exemplo que me chama mais atenção e também foi noticiado com destaque essa semana: pelo terceiro mês consecutivo, a indústria automobilística bateu recorde de vendas no Brasil. A notícia vem em geral envolta num tom positivo, tendo como único foco o desempenho da economia. Entretanto, menos de um mês após o fracasso da COP-15 ter sido alardeado pela mídia, não se lê sobre o impacto de emissões dos novos carros que passam a circular, ou sobre o impacto para a saúde e o trânsito nas cidades e nem mesmo sobre a falta de políticas que condicionem a produção e o consumo do transporte individual a iniciativas de descarbonização da economia e de sustentabilidade para o meio urbano.

Seguindo o mesmo estilo de cobertura dos desastres naturais, só ouviremos falar dos impactos negativos da indústria automobilística quando a cidade de São Paulo bater um novo recorde de congestionamento ou de internações por problemas respiratórios ou ainda acusar um aumento de emissões de carbono. Quando cientistas e ambientalistas dizem que é urgente novas formas de produção e consumo, isso significa que a socieade como um todo deve rever seu comportamento. E isso inclui a imprensa. Para cumprir o papel de guardiã da cidadania que muitas vezes se reserva, a mídia deve ter a ousadia de se antecipar aos fatos, deve inovar com pautas cotidianas pensadas a partir de uma perspectiva mais crítica e ter a coragem de colocar o dedo em feridas – mesmo que elas estejam associadas a patrocinadores de peso.

Ricardo Barretto, GVces

Esperança e decepção

dezembro 19th, 2009

Copenhague foi um misto de esperança e decepção pré-anunciada. Por um lado, a velha e sincera esperança por um mundo melhor é depositada sobre um possível acordo duradouro e efetivo que reduza as emissões globais de gases que aquecem o planeta, brindando as próximas gerações com um pouco de responsabilidade e respeito. Por outro, a não menos velha desconfiança de que, por mais que se expressem, os países não superarão suas diferenças e a defesa de seus próprios interesses, sejam estes nacionais ou políticos.

Paulo Moutinho, IPAM

Braços cruzados

dezembro 18th, 2009

Copenhague amanheceu cinzeta. Conforme acompanho os discursos dos líderes de Estado pela Internet, tenho a sensação de que o mundo todo está num mesmo dia nublado. É a ressaca moral da COP-15.

Pensar que a missão que estava encomendada para a Conferência era simplesmente a de salvar o planeta e que ao final chega-se a menos consensos do que em outras reuniões, permanecem as mesmas divisões que vemos nas negociações climáticas há anos, que os países não conseguem rever suas posições … é realmente decepcionante.

Sim, o discurso de Lula foi empolgante. Sim, ouvir o Chavez espinafrar os Estados Unidos após o papelão do Obama até põe um sorriso no rosto. Mas no fim do dia, continuamos numa trajetória de aquecimento global, de incapacidade de mudanças no tempo que o planeta pede seja em nosso modo de vida, seja nas bases da economia, seja no relacionamento entre as nações. Nossa espécie continua a seguir a rota de não-adaptação à casa que a acolhe.

Vários chefes de Estado já anunciaram o slogan do prêmio de consolação: Copenhague não é o fim. Copenhague é o começo. Algo como: chegamos ao fundo do poço do diálogo internacional; daqui por diante construiremos outro caminho para o planeta. Certo. Não há muito como fugir dessa situação em termos políticos, mas para quem esteve em Copenhague nos últimos dias e vivenciou um dos encontros políticos mais tortuosos da história, seja pela incapacidade de endereçar uma questão que é vital para todos os países, seja pelas dinâmica anti-democrática que se revelou no bloqueio ao diálogo com os páises em desenvolvimento, na elaboração de um documento às escondidas - manobra política desastrosa, para não dizer vergonhasa para a Dinamarca _ e no bloqueio à participação da sociedade civil que tem sido historicamente o agente propulsor de idéias e ações que fizeram a questão do clima avançar.

Se fosse pelos manifestantes que foram reprimidos, imobilizados, presos e tratados como caso de segurança pública, o próximo passo, frente ao descalabro que se tornou a Conferência de Copenhague, seria um movimento mundial de grandes proporções, uma parada geral, um sinal de que a falta de um acordo legalmente vinculante é inadmissível. Ainda temos duas plenáriaspra chegar ao fim da jornada, mas a reação que me vem nesse momento é “cruzemos os braços como os líderes mundiais cruzaram frente ao futuro de toda a humanidade.” 

Ricardo Barretto, GVces

Transparente

dezembro 17th, 2009

A Conferência de Copenhague era para ser um encontro histórico, com o objetivo de redirecionar o rumo de nossa sociedade em sua relação com o planeta, dando diretrizes para uma nova economia com redução de emissões dos gases de efeito estufa. Mas o encontro está firmando seu lugar na história por uma série de surpresas ao longo do caminho, como o bloqueio do acesso de ONGs no dia de ontem, as sucessivas ações de repressão da polícia às manifestações que acontecem nas ruas de Copenhague e - a cereja do bolo - um documento elaborado em segredo, por países desenvolvidos, que passa por cima das discussões feitas até aqui e das demandas dos países em desenvolvimento.

BRICs e os países mais vulneráveis têm reclamando da falta de transparência, mas o que vemos é uma situação clara e cristalina. Países ricos procuram ganhar terreno usando de meios inusuais para uma COP e ainda se comportam como numa simples negociação de trocas comerciais, quando na verdade está em questão o futuro do planeta, que numa situação de aumento da temperatura global acima de 1.5 graus atingirá mais fortemente os países mais pobres. Os países desenvolvidos se outorgam uma legitimidade que não tem respaldo nem no processo decisório da Conferência das Partes, nem nas discussões dos países envolvidos na crise ambiental mundial e nem nas manifestações populares que acontecem nas ruas e na internet aos montes.

Em mais 48 horas, saberemos o que surgirá disso tudo. O frio na barriga até lá é proporcional ao gelo que cobriu as ruas de Copenhague desde ontem …

Abaixo, um vídeo do Vitae Civilis resumindo o dia de ontem na COP.

Ricardo Barretto, GVces

O desfecho da participação de ONGs com crachás amarelos na COP-15

dezembro 16th, 2009

Hoje o dia foi bem difícil para quem tinha crachá amarelo (de Ongs). Falo isso porque no Brasil muitos representantes de Ongs estão credenciados como Parte na própria delegação oficial brasileira (crachá rosa).

Quem chegou com crachá amarelo depois das 10:00 não conseguiu entrar no Bella Center. Quem entrou e queria informações sobre o acesso na quinta-feira teve que passar por uma maratona de falta de informação ou informações incorretas. O comunicado oficial dizia que apenas 1000 representantes de Ongs poderiam entrar na quinta-feira e 90 na sexta-feira. O Secretariado também orientava que as Ongs procurassem suas representações junto ao Secretariado. No caso das Ongs ambientais, o ponto de contato é a Climate Action Network International. Durante todo o dia, a CAN international deixou um aviso da porta de seu escritório (fechado a maior parte do tempo) avisando que só distribuiria entradas para as ONGs filiadas à CAN. Para os não filiados, eles informavam que o Secretariado distribuiria entradas adicionais.

O Secretariado por sua vez, não sabia disso. Após várias tentativas, recebi instruções para voltar às 17:00 no escritório do Secretariado para observadores (Ongs). Às 17:00, fui informada de que a distribuição seria às 20:00. Às 19:15, informaram que a distribuição seria às 20:30 e que seria para quem chegasse primeiro.

Pois bem, às 20:30 dezenas de Ongs se aglomeravam em uma das salas do Bella Center sem qualquer informação do Secretariado. Uma representante de Ongs da Suécia começou a organizar uma lista de chegada para orientar a tão esperada de distribuição de entradas. Finalmente, às 22:00 a representante do escritório do Secretariado para observadores entra na sala em que estavam as Ongs com três policiais armados. Nem precisava falar, pois com essa entrada todos já sabiam que a notícia não era boa.

Ela começou pedindo desculpas pela demora e falou que estava em uma reunião com Yvo de Boer e com os pontos de contatos das Ongs para decidir sobre a entrada na quinta. A princípio, a decisão era de não permitir nenhuma Ong na quinta-feira. Depois, os representantes conseguiram garantir 300 entradas. Porém, as entradas seriam alocadas para os pontos de contato, que então decidiriam sobre a distribuição.

O resumo é que aqueles que esperaram o dia inteiro seguindo as instruções que receberam ao longo do dia não receberam nenhuma entrada. Pontos de contato, como a CAN International, distribuíram as entradas entre seus afiliados.

Depois do comunicado, houve uma hora de comentários por parte de vários presentes na sala. Reclamamos da falta de organização desde o princípio com as Ongs e alguns até pediram para serem reembolsados pelo Secretariado pelas despesas com a viagem à COP! Sugeri que eles usem um sistema on line para facilitar a inscrição de participantes na COP e evitar o caos que foi criado (veja meu post anterior). A resposta que recebi é que o Secretariado está trabalhando nisso e que tem um sistema em teste, mas que preferiram não usá-lo nessa COP com medo de que houvesse algum problema. Bem, os problemas ocorreram mesmo assim…

Ficam os votos de boa sorte a todas as Ongs que estão registradas na delegação brasileira (com crachás rosa) para que consigam entrar no Bella Center amanhã e que representem exemplarmente a todos que ficaram de fora. Os resultados dessa COP ainda são incertos e a participação da sociedade civil junto aos países, mesmo que limitada, será muito importante para tentar garantir um resultado satisfatório na COP-15.

Brenda Brito, Imazon